Charge: Paulo Caruso - Roda Viva
Para entendermos melhor a questão da segurança pública e o problema da marginalidade no Rio de Janeiro, é preciso adotar uma visão muito além do senso comum e passional a qual foi veiculada pela grande mídia. Aos interessados nas interpretações dos fatos, recomendo a leitura de “A crise no Rio e o pastiche midiático”, de Luiz Eduardo Soares. Para ele, o tráfico de drogas só chegou a este ponto porque se desenvolveu em sociedade com segmentos policiais corruptos, sem generalizar, é claro, a atuação de muitos policiais honrados. Há razões para a corrupção prosperar: a fonte do crime organizado e a negociação que impera no Rio contam com envolvimento político, as milícias atuam como cabos eleitorais e isso vale muito voto. As UPPs são importantes e simbolizam um corte político, as ocupações na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão foram necessárias, mas é apenas o começo, não significam que ganhamos a guerra, enquanto houver esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade. Quanto às razões para a rebelião dos traficantes, além da revolta com a implantação das UPPs, é um caso de segredo de estado! Quais seriam então essas razões? Entendendo que a questão é muito mais complexa do que imaginamos, gostaria de manifestar minha opinião como pedagoga: a questão da marginalidade não se restringe apenas ao âmbito da segurança pública, envolve também a perspectiva política, social, educacional e cultural. Desde Platão na Grécia antiga, a busca por uma sociedade justa significava a divisão social por classes para garantir a manutenção de uma cidade ideal descrita no livro “A República”. A cidade ideal platônica seria estruturada em três estamentos: trabalhadores manuais (artesanato e agrícola), guerreiros (responsáveis pela ordem e proteção) e sábios e governantes (filósofos). Mas como é que seria mantida essa sociedade justa e harmoniosa? A educação foi a peça chave para o funcionamento da cidade, fundamentada em um ideal político e com adequação de currículos acadêmicos diferenciados para cada caso. Toda educação envolve política, sempre foi assim e sempre será, estão muito enganados os que veem a educação como um instrumento de equalização social. É preciso entender a educação para além do foco pedagógico, quer dizer, como aparato para discriminação e marginalização social. Do mesmo modo que as políticas de segurança pública só obterão êxito no momento em que extinguir com a corrupção policial e política, a educação só irá prosperar quando for oferecida com igualdade de oportunidades, isto se expande para a questão social e cultural. Quando foi que as escolas se efetivaram como um espaço de transformação e democratização social? A classe dominante nunca teve esse interesse. Como a educação e as políticas públicas poderão contribuir para a superação da marginalidade?
14:09
SubMídia Ufba

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